terça-feira, 25 de agosto de 2009

sexta-feira, 17 de julho de 2009

bom conselho

O olho não mirava nada. Aquela conversa era de alma. Ele dizia em agonia: "Não deu certo, né? Ele não aceitou. Mas olha, foge pro mato, pra longe desse homem. Você é moça direita, de futuro, não tem de ficar metida no meio dessas confusões não".
A alma dela cambaleou, querendo não entender.

quinta-feira, 2 de julho de 2009

bem-querer

Ela tinha decidido, de última hora, ir com a família a um espetáculo de dança. Saiu de lá querendo dançar uma vida, encontrou com o melhor amigo que deus lhe tinha dado, tomou dois chopps falando bobagens e cantando "don´t look back in anger" - coisas que só eles poderiam fazer. Ficou feliz de saber que a vida tinha reservado ele pra ela (pra sempre). Chegou em casa comendo o chocolate que ele havia dado e deitou sem escovar os dentes pra dormir com o gostinho da felicidade.

quarta-feira, 17 de junho de 2009

desencontro

Aquilo era o que não parecia. E o que era, não aparecia.



(É que as vezes é feio de longe, e se chegar bem de perto a gente entende o que é e fica bonito de encher o coração.)

quinta-feira, 4 de junho de 2009

fantasia

Ela ficava assim, tentando entender essa vida. Quanto mais a cabeça pensava, mais o peito apertava. E todos os dias ela acordava pensando “tomara que tenha passado”; mas no segundo passo pra longe da cama, lá vinha a danada da agonia, de novo. E, dessa vez, não tinha cachorro-quente que resolvesse, não tinha conversa amiga, nem colo de mãe, não tinha palavra doce de namorado, nadica de nada. Era o bicho que morava dentro dela, que tava crescendo, sem respeitar a casquinha... Aquele bicho, que manda e desmanda, queria mais espaço, queria mais atenção. Queria tudo pra ele, sem dividir com ninguém, queria todas as forças, todas os sentimentos, tudinho voltado pra dentro – pro ego mesmo. E o que é que tava errado, essa história de ser altruísta? O bicho queria que ela deixasse o medo de lado. “Logo o medo?”. Isso, querida, faz o que você quer, sem medo. “Mas e se...?”. Nada disso, o bicho nem queria ouvir. Era um mês arrastado, mês que tudo andava errado, às vezes muito forte, às vezes tão fraco. E ela tava mesmo desistindo da vida. “Se tudo dá no mesmo lugar, hay que luchar?”. A voz do Chico não lhe saía da cabeça: “E se de repente a gente não sentisse a dor que a gente finge que sente?”. Então ela quis parar e reavaliar tudo aquilo, porque a dor dela, era só dela, afinal. Que culpa tinham os amigos questionadores que quase a matavam de raiva, fazendo o bicho lá de dentro se contorcer? Que culpa tinha o namorado com o seu bicho de dentro todo doido também? Que culpa tinham as avós, de serem inconvenientes? Que culpa tinha a mãe, de estar sempre cansada? Que culpa tinha a irmã e a amiga, de serem sempre tão irritantes? Que culpa tinha, afinal, o resto do mundo, se o bicho crescia era dentro dela? Dessa vez não tinha jeito, não tinha desculpa, não tinha viagem, não tinha briga, não tinha nada. Era ela com ela e ninguém metia a colher. Então ela se rendeu, disse pro bicho "Ok, sou sua. Pode fazer o que quiser" - daí ela chorou, esperneou, gritou, ficou fazendo força na frente do espelho até a cara ficar vermelha e ela ter que respirar rápido, rabiscou as folhas tratadas sempre com tanto cuidado, ficou dias sem olhar pro computador, fez amizade com a vodca - arrependeu amargamente no dia seguinte, ficou sem comer o dia inteiro (e no outro comeu como se nunca tivesse comido na vida), foi ao cinema sozinha, quis ser mais gorda, depois quis ser mais magra, quis e não quis todas as coisas da vida. O bicho de dentro, que não esperava nada disso, tomou um susto de arregalar a alma. Ficou quieto, quase pediu desculpas. Prometeu que ia se comportar, disse que ela provou sim, que era forte, que era guerreira. Agora ela estava, então, em paz.
AH! Vieram então, sorrateiras (como sempre), as palavras de Hermógenes. Nem era isso que ela tava buscando, ela queria só fazer um desenho, só estava procurando um bom modelo. E eis que "Deus me livre de ser normal" aparece de novo, com força total.
Ela então tomou a sua decisão, sim, PAZ, AMOR, PERDÃO e LUZ. Nada de ruim ela queria perto dela, nem desejar, pra ninguém. Mesmo aquelas pessoas, aquelas, que sabem bem quem são. Ela queria contemplar tudo com muito mais amor e harmonia - como tanto era aconselhada, por aquela voz calma de veludo. Era isso, a opção dela estava feita. E tinha um sido um remédio eficaz, ah, tinha sim.

quarta-feira, 20 de maio de 2009

meu guri



Eu queria, hoje, homenagear um pássaro. Um pássaro de olhar firme e peito erguido. Um pássaro que tem o bater de asas mais seguro que eu já vi na vida (mesmo não tendo um rumo certo). Um pássaro iluminado, que aqui não caberia descrever a minha admiração.

Mas como os pássaros não sabem ler, guardo um pedacinho desse meu amor aqui.

sexta-feira, 15 de maio de 2009

desembolada ou there is a light that never goes out



Lembro, como se fosse ontem, a primeira vez que a gente se viu. Ela tinha o cabelo liso, brilhante, que passava um pouco dos ombros. A pele era morena e o olhar assustado, mas imponente – olhar de quem não engole desaforo. Ela vestia um shortinho coladinho, mostrando aquelas perninhas magrinhas. Sentada na cadeira, com a perna meio cruzada, ela tirava vantagem de conhecer nossa amiga em comum há mais tempo que eu (as mães haviam feito yoga para grávidas juntas). Sempre achei que ela tinha um raciocínio peculiar. Dizia que estudava em uma escola tão legal, que até a porta de entrada era redonda (e vermelha!), e que eu não podia mudar pra lá porque já estava na terceira série e não valia a pena mudar pra fazer uma série só.
Descobrimos depois, que, nossas famílias eram da mesma cidade – só que ela era MUITO mais que eu, já que seus pais eram ambos de lá (já não nos conhecíamos?). A verdade é que ela não me foi nada simpática. Tudo dela era bom demais pra mim.
Seguimos freqüentando o mesmo grupo de amigos (como vocês duas se parecem!) e a carinha dela me foi ficando mais e mais simpática. Uns quatro anos depois do primeiro encontro, mudamos para o mesmo colégio – eu, dois anos mais velha. Ficamos assustadas com o tamanho daquele lugar e com a forma estranha com que aquelas pessoas se relacionavam. Nos agarramos ao que tínhamos em comum. Éramos ET’s em um mar de ‘smurfs’, andávamos de all-star, vestíamos preto e escutávamos Nirvana (ela, obviamente, escutava MUITO mais que eu). Aos poucos, fui aprendendo a lidar com aquela menininha magrela do ego gordo. Saíamos juntas pela rua, cantando uma versão punk de “you are my sunshine”, freqüentávamos festinhas e morríamos de frio na barriga jogando “verdade ou conseqüência”. Nas férias, íamos pra praia e ficávamos louvando nossa liberdade naquele lugar. Brigávamos e nos odiávamos com todo o ódio disponível no mundo quando ela fazia coisas como ficar com o menino que estava ficando depois que eu tinha ido dormir. Tivemos os pais divorciados com pouco tempo de diferença e nos revoltávamos contra eles e contra o mundo juntas.
Ela me reprimiu quando eu me distanciei, me aconselhou (enfiando conselhos goela abaixo – do jeito dela) e, em um momento muito especial, ficou do meu lado 24 horas. Me ajudou no meu primeiro grande empecilho da vida, me empurrando morro abaixo e dizendo: “coragem, Teka!” – e ela inventou o apelido que menos tem a ver com meu nome, e não abre mão dele.
No meio dessa bagunça da vida descobrimos o mais engraçado, minha bisavó teve minha avó com o tio avô dela! Sim, foi uma pulada de cerca! Sim, existe uma explicação pra toda essa semelhança! O destino não quis deixar a gente escapar mesmo. Pouco tempo depois dessa descoberta fenomenal, ela foi morar do outro lado do mar. Lá, ela vivia emocionada. Lembro do primeiro e-mail: ‘Teka, a Hungria é mais quente que a Bahia!’. Não sei contar quantas vezes em um ano ela me ligou no meio da noite, bêbada – achando aquilo tudo muito natural e dizendo: ‘Szia, Teka, adivinha??! To bêbada!!! Viva palinka!!’. E eu aqui, do outro lado do mar oscilava entre morrer de rir e querer matar. Isso quando ela não passava o telefone pra alguém que definitivamente não falava minha língua.
Um mês antes dela voltar, quem bateu asas fui eu. Aqui, tudo tinha mudado. Eu tentava fazer o drama dela pra ver se ela me dava atenção, mas não adiantava. As coisas do outro lado do mar eram bem mais emocionantes. Tudo bem, eu já engolia os sapos dela há alguns anos. Quando eu voltei (tinha um ano e meio que a gente não se via?), assim que eu e minha mala atravessamos a portinha automática do aeroporto, ouvi alguém correndo e nem precisei imaginar quem era. Tinha virado uma mulher, aquela rata (mas vocês estão cada dia mais parecidas!).
E hoje, que ela está se despedindo dos teens, escrevo aqui, pra falar do meu amor, do meu carinho e da minha paciência com ela (e dela comigo). E pra dizer que eu, como boa altruísta que sou, sigo feliz caminhando ao lado dela e de seu ego.
Szeretlek drága! Now and forever more. Puszi, puszi.