segunda-feira, 6 de abril de 2009

agora falando sério



Ah, se me deixam falar! Se me deixam falar eu faço uma viagem pelo Brasil, mostro minha visão do paraíso, eu tento entender a condição da humanidade, eu danço no balanço da bossa, ando três mil milhas, saio em busca de mim mesma, eu reinvento o afeto, eu pós-modernizo, eu caso com o homem e seus símbolos, eu arrumo minha casa de acordo com o feng shui, mergulho num mar de histórias, eu atuo no teatro das sombras, eu piso em chão de ferro, eu ponho a alma no lugar, eu viro muitas noites circenses, eu descubro a magia do caminho, eu conto a idade da razão, eu aprendo a olhar (e ver), eu mudo pra casa verde, eu grito com o corpo, eu diferencio cada laranja do mundo, eu penso como um gênio, eu mergulho em memórias, eu converso com a amendoeira, encontro com homens notáveis, admiro esse mundo novo, como na festa de babette, viro artista da fome (por pura arte), viajo com gulliver, entendo a economia regional, eu medito com os anjos, escuto com calma cada palavra de hermógenes, entendo enfim o enigma do homem. Ah, se me deixam falar.

segunda-feira, 30 de março de 2009

bicharia ou a verdadeira história do lobo mal

7 de novembro de 1996



Tinha um lobo que estava solto na cidade grande. Este lobo se chamava: Alichandre-lobo.
Um dia Alichandre-lobo foi fazer um bolo para sua avó que faria 104 anos de idade. Quando Alichandre foi ver não tinha açúcar. E ele precisava de açúcar pra fazer o bolo. Então Alichandre-lobo foi pedir açúcar aos vizinhos, no primeiro vizinho a casa era de palha e era de um porquinho. Quando Alichandre-lobo foi pedir uma xícara de açúcar, um pedaço de palha foi no focinho dele e ele deu um espirro assim:
- U-uuuueeeeeeeeeeerrrrrrrrrrrrrrrruuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuu!
E destruiu a casa do porquinho toda e o porquinho morreu. O Alichandre-lobo não iria deixar aquela carne apodrecer ali sozinha, então comeu o porquinho. E foi do mesmo jeito com o segundo porquinho, até a parte do espirro foi igual. Só que com o terceiro porquinho foi diferente, porque ele era muito mal-educado e a casa não era de palha, era de tijolo e o lobo não espirrou e ficou sem fazer o bolo porque o terceiro porquinho também não deu o açúcar.

(História retirada do meu caderno da segunda ou terceira série do ensino fundamental, baseada na história do lobo mau e suas variações)

quinta-feira, 26 de março de 2009

divina dama

Fim de 1993 e descobrem o primeiro maior sofrimento da família. Aquela filharada ia ter de seguir vivendo sem os docinhos, as rezas, os encontros e aquele conforto que só as mães oferecem. E foi tudo assim, rápido que nem se viu. Era outubro, as festas já batendo na porta, os netos ansiosos com a chegada do papai Noel, dos presentes e daquele clima de filme de seção da tarde. E ela, especialmente, que esperava o ano todo pelo aniversário, não conseguia entender o desânimo geral com a data mais esperada! Outubro passou arrastado e tristonho. Ela perguntava pelo seu aniversário: “mas mamãe, todos os meus colegas já fizeram 6 anos, todo mundo faz aniversário, menos eu!”. E a mãe respondia: “filhinha, você não entende, a vovó está muito doente, a gente não pode fazer festa agora”. Novembro passou e ela seguia perguntando à mãe: “a gente sempre comemorou meu aniversário em novembro, mãe!”. A mãe já nem queria responder. Chegaram os inadiáveis 6 anos, no último dia de 1993, sem comemoração, sem clima e sem força. “Todo mundo do mundo faz aniversário, menos eu”.
No dia 10 de fevereiro de 1994 a menina acorda sozinha em casa. “Pra onde foi todo mundo?”. Com sua imaginação de menina, ela levanta assustada e vai procurar as escovas de dente dos moradores, achando que tinham todos fugido de casa. E não, eles não tinham fugido. O telefone finalmente toca: “onde você tá, mãããããe?”. A mãe quase sem voz diz: “Minha filha, a vovó foi pro céu”. Ela não entendeu, mas via que a mãe sempre chorava, deitada na cama, com lagriminhas discretas de mãe. O tempo passava, a menina insistiu tanto na festa que assim que teve forças a mãe decidiu fazer. A menina ficou alegre, e a festa em março deu uma levantada no astral da família. O ano foi passando, e surgiu um outro dilema na vidinha de criança da menina. Como ela ia fazer 7 anos se tinha acabado de fazer 6? O jeito foi fazer outra festa intrigando os coleginhas por fazer 2 anos em um só e arrumar mais um motivo pra família se unir e seguir sempre junta.

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009

a moça do sonho



Um sorriso daqueles assim, de desatar o mais apertado dos nós. Aquele que ri e nem entende de que. Só ri, porque é bom assim. Naquela pureza de nem ser, só estar.

And we know what is gonna last forever. Welcome home, sweetie.

domingo, 15 de fevereiro de 2009

a voz do dono e o dono da voz

O coração dela estava aprontando um desassossego danado. E ela dizia pra ele: acalma coração, que não adianta ficar assim. De tudo ela já tinha tentado fazer, leu, escreveu, desenhou, saiu, voltou, comeu. Sossega, trem, o que é que você quer afinal?

E o coração dela respondeu, apertadinho que só ele:
Queria uma luz calma, uma música calma, uma vida calma. Queria ter algo para oferecer. Ter mais segurança e mais perspectiva. Queria seguir em frente, com toda a energia do mundo. E aí sim.

Aí eu quero cachorro-quente com bastante molho, quero o caminho cidade-praia com as boas e velhas amigas, quero o aconchego do colo da mãe, e até as palavras (tantas vezes) secas da irmã. Quero aquela risada gostosa de jogar o cabelo pra trás, quero desenho no fim dos cadernos, quero aquele sono leve com aquele sonho gostoso, quero aquele livro que a gente lê até almoçando, quero aquelas danças loucas com a amiga mais animada. Quero miojo e brigadeiro com a amiga que tem até que fazer vaca amarela pra conseguir dormir. Quero cantar alto aquela música do Los Hermanos só pra ouvir ela gritando a letra certa naquela casa vazia e fazendo todos os pernilongos voarem. Quero a voltinha que ele faz com a pernas ao som do Elvis, quero as músicas improvisadas no violão. Quero as conversas-borracha (nos dois sentidos) com a melhor amiga virtual, quero pegar o cachorro bafento e apertar até que ele faça aqueles tão conhecidos grunhidos e fuja de mim correndo. Quero beijos calmos e abraços apertados, quero vinho na beira da fonte mal iluminada, quero jantares apimentados de comida estranha. Quero fotos coloridas ao som da bossa nova. Quero Almodóvar, Frida Kahlo e Van Gogh, quero Chico, Elis, Edu e Tom.

Talvez num tempo da delicadeza.

quarta-feira, 31 de dezembro de 2008

a cidade dos artistas ou noite estrelada



Pra fechar o ano cheio de cores, porque há muito que agradecer. Gracias!

(De Van Gogh, por mim)

terça-feira, 9 de dezembro de 2008

passaredo



Era uma vez um ninho vazio. Sujo ainda do último morador. Estava ali bem perto um passarinho bem amarelinho. Ele avistou de longe o ninho, não viu se estava sujo (pra ele não importavam essas coisas). Ficou voando por perto, averiguando o espaço. Pousou no galho mais próximo e ficou olhando com seu olho de passarinho. Quando viu que estava vazio, voou rapidamente para não perder o lugar. Foi, aos poucos, limpando a sujeira que o último deixou. Cuidou do ninho como nenhum morador jamais havia feito. E, por fim, se instalou.
O ninho sentiu-se acolhido (estava feliz com o novo passarinho – tão amarelinho). Como estavam quentinhos e confortáveis o ninho e o passarinho! Eles até podiam dizer que se amavam. E Rubem Braga já havia dito: “Amar é ter um pássaro pousado no dedo. Quem tem um pássaro pousado no dedo sabe que, a qualquer momento, ele pode voar”. Mas mesmo correndo todos esses riscos que a vida impõe, o ninho e o passarinho sabem que, aconchego igual aos dois, não há nem nunca houve. E não se há de ter medo.